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Moda

Cresce a procura por roupas para quem está acima do peso ideal

Mesmo com uma demanda generosa não é fácil trabalhar no segmento

Matheus Fortes | 24/01/2017 - 06:36
Em Salvador, há poucas lojas disponíveis
Foto: Romildo de Jesus
Em Salvador, há poucas lojas disponíveis

A vida não é fácil pra quem está acima do peso. Não bastando o problema de muitos com a autoestima – imposta, sobretudo, pela prevalência de pensamento coletivo perverso que endeusa o corpo magro, ofuscando todos aqueles que não se encaixam no modelo –, gordinhos e gordinhas ainda convivem com a falta de opções para renovar o vestuário, já que também não há muitas opções no comércio.

Em contrapartida, quem vive desse mercado em Salvador, faz uma grande diferença em todo o varejo de moda – afinal, sendo muito poucos, os estabelecimentos de roupa plus size acaba atraindo um público maior, contando com uma concorrência bem menor, se comparada com as lojas de vestimenta tradicionais. E quem trabalha no segmento garante: há espaço para crescer nesta área, mas é preciso conhecê-la.

Vendendo o plus size há quase duas décadas, Renata Marsicano destaca que só observou um crescimento real do segmento, nos últimos cinco anos, quando a moda passou a dar mais espaço para as roupas dos tamanhos 44 a 54, e cita a criação de eventos e estampas neste formato, como fatores relevantes neste crescimento. Hoje, a média é de 40 peças vendidas no mês, o que seria um desempenho razoável para o tamanho da loja, que se situa num pequeno espaço do Shopping Rio Vermelho.

“Como aconteceu em todos os setores, a crise também nos afetou: clientes que antes consumiam de  R$ 4.000 a R$ 5.000, reduziram suas compras para valores entre R$ 2.000 a R$ 3.000”, conta Renata, que é gerente na loja. Ainda assim, por trabalhar com um segmento tão pouco explorado, as vendas não passam pelas mesmas dificuldades que o varejo de vestuário voltado para os magrinhos.

A prova, segundo Renata, é que mais da metade da receita na loja vem das vendas plus size. E para continuar aproveitando do bom momento, ela utiliza muito do “boca a boca”, e das mídias digitais para ofertar peças como os vestidos chemise (que estão entre os mais procurados), até calças e shorts (mais vendidos principalmente no período pré-carnaval), com preços que variam entre os R$ 49,90 e vão até os R$ 400, através de contas no Facebook, Instagram e WhatsApp.

Hoje a loja possui aproximadamente 30 clientes fidelizadas que, como conta a gerente, estão sempre acompanhando as novidades do estabelecimento, e entrando em contato para saber se um modelo novo chegou às prateleiras. “A maior parte da clientela, são das classes A e B, de bairros como a Pituba, Barra, Ondina e, claro, o Rio Vermelho. Muitas afirmam não ter paciência para andar em shoppings, vindo direto pra cá quando precisam de algo”, detalha.

Na loja, consumidores também já manifestaram interesse para comprar roupas íntimas em oportunidades, mas Renata explica que não conseguiu achar um fornecedor com preços acessíveis, e por isso precisou suspender a ideia. Apesar disso, ela pretende explorar os biquínis nesses tamanhos futuramente, aproveitando que também há procura para as peças de praia.

O que garante o retorno das consumidoras, explica Renata, não é só a variedade dos produtos, mas o atendimento que, diferenciado, foi aplicado pela gerente, que também usuária dos tamanhos maiores. Para ela, é necessário que a mulher, ao entrar na loja, se sinta o mais à vontade possível, contando com a atenção dos atendentes sempre que puder, e sem ser incomodada ao sentir que não precisa de ajuda para escolher as peças.

“Ao longo dos anos, eu fui notando como era o atendimento para pessoas com as mesmas características que eu, percebendo o que não me agradava, e utilizando essas experiências no comércio. Há muitas mulheres que, acima do peso, não se sentem confortáveis comprando roupa, e a nós aqui temos a filosofia de que não existe nada errado em estar acima do peso, se você tiver também saúde e autoestima”, declara.

Fidelização chega até 70%

Quando comparada com o varejo do vestuário convencional – em que há maior oferta para pessoas mais magras –, o plus size realmente corresponde a uma parcela mínima do comércio, e que soma uma grande procura na capital baiana. Os grandes shoppings da cidade, por exemplo, dispõem de um número bem reduzido de lojas para roupas de tamanhos acima de 44, o que evidencia o espaço ainda não explorado pelo comércio local.

Apenas na filial do Salvador Shopping, a loja Programa recebe 1.600 modelos por coleção, em preços que variam dos R$ 49 à   R$ 299, e possui uma frequência mensal de 200 clientes. A maior parte dos consumidores também é fidelizado e corresponde a 70% dos que compram no estabelecimento. Assim como acontece com a loja Green, os períodos de mais compra antecedem épocas como o carnaval, o Dia das Mães e o Natal.

Mesmo com uma demanda generosa, sobretudo em um período de crise econômica, não é fácil trabalhar no segmento. A gerente da Program – que possui lojas em mais dois shoppings da capital baiana –, Linda Barradas, explica que o plus size exige uma boa equipe de modeladores e uma estilista de qualidade, já que, se as peças voltadas para os magrinhos ficam prontas em um ou dois dias, os moldes do tamanho XG, por exemplo, podem demorar até uma semana para serem concluídas.

“Peças plus size não são nada simples. É preciso que elas caibam razoavelmente bem em um bom número de pessoas. Isso não é fácil, pois as medidas, neste caso, variam muito, há aquelas que têm braços mais grossos, ou o peito mais volumoso, ou barriga maior, etc. Quem quer trabalhar com essa área precisa entendê-la muito bem”, destacou a gerente.

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